Tuesday, November 28, 2006

Boom


Naquele momento nos reconhecemos. A troca de olhares através do vidro rebaixado do carro era a promessa de uma noite que iria acontecer. Entre conversas e drinks divididos, ele dizia "Não bebo, mas posso dividir com você?", eu dizia, "É claro, toma aqui...". Nos misturamos.
Em meio a muitos diálogos e olhares a festa ao redor desaparecia. E foi assim que resolvemos subir, deixando para trás o burburinho. Subimos. Subimos todos os degraus que haviam a ser subidos. Silêncio. Troca. Nos beijamos. No fundo a forte chuva reforçava a sensação de algo mágico que se construía. Era a guardiã de nossa torre. E por lá ficamos. E nos bastávamos. A festa alguns níveis abaixo acontecia, mas de nós ninguém sabia... Com tanta chuva não poderíamos ir embora, mas não importava. Ficamos abraçados. Até adormecemos. Dois fantasmas acorrentados. Mas não queríamos ser salvos.
Nos dias que se seguiram éramos um. Ele dizia que adorava o jeito como eu o olhava e eu entendia. Em meio a Contos, Livros, Filmes, Músicas. Em meio a quem sou quem você é a notícia de um asteróide nos arrebata. Trinta e um anos e boom, ele dizia. Falemos tudo. Não escondamos nada. Nos conhecíamos à galope. Interesse mútuo que não cabia no agora, se extendia à Nossa Zelândia...
Contos, Livros, Filmes, Músicas.
Ele alimentava a minha criatividade, a inspiração à flor da pele. Uma conexão dada em outro nível. Profundo...
Mas num belo domingo, o pneu furou. A chuva caiu, e já não era mais tão bela quanto à que foi testemunha de nosso primeiro beijo. Uma sucessão de casualidades mal interpretada. Amarramos todos os eventos soltos, com as nossas próprias mãos. E nos estranhamos. Ele estava lá e eu cá.
Contos, Livros, Filmes, Músicas.
Mas dois estranhos em seu quarto. Volto pra casa. Meu olhar sobre a janela rebaixada do carro encontrava o vazio, procurando compreender o incompreensível. 91052585, Caio? Em respeito ao asteróide, eu dizia, fiel à premissa de que falaríamos tudo. Falei. Certo ou errado, falei. A partir daí racionalizamos o que era sentimento. Responsabilizamos a nossa conexão como causadora de atos desconexos, e nos desconectamos, sem nexo. Brincamos de maestros, harmonizando elementos isolados como parte de uma mesma canção. Mas logo nós?
Contos, Livros, Filmes, Músicas.
Sem você...

3 comments:

Guido said...

Sempre pensei que você seria uma boa escritora. Minto. Acho (e isso vale para o passado) que você é uma grande escritora.

said...

Ori querida!!!! Estou amando esse blog! Esse texto então, está divino!! Saudade de ti...
beijo,

e quando quiser, vá lá em casa:
www.monsieurbinot.blogdrive.com

Cris said...

Lanesssssssss vc sabe que sou sua fã número um! Esse texto é simplesmente bárbaro! sem comentários...